Olho fundo em teus olhos castanhos na esperança de me ver neles como um espelho. De me ver dentro deles querida, amada. Mas eles somente aparentam transparência, não há nada, porque nunca houve. Não importa o quanto se queira, nunca é suficiente. Mas por um momento pensei que seria, pensei que as coisas retornariam ao normal. Uma nova chance de recomeçar entre as várias que tivemos. Mesmo assim, espero toda vez que a sua voz não me corte, que seu olhar não me torture, que seu toque não arranque pedaços de mim.— O que aconteceu contigo? Tu pareces… devastada. — tu soas preocupado e eu me derreto, e ao mesmo tempo morro de tristeza.
— Ah, sabes como é… as pessoas tem essa tendência de me decepcionar. Mas é bobagem minha, porque eu acabo dando valor demais, amando demais quem não merece. E então eles simplesmente vão embora. — suspirei tão fundo que por alguns segundos o peso saiu de mim.
Tu parastes sem reação em minha frente. Virava a cabeça de um lado para o outro, tentando entender, tentando… não sei. Achar algum motivo para eu ficar alegre. Tu sempre tentavas fazer isto. A positividade e a negatividade andando lado a lado, como se não houvesse nada errado… nada estranho em simplesmente sentirem aquele choque de diferenças ao conversarem. Fechastes os olhos e encarasse teus pés. Botastes as mãos na cintura como quem desaprova tudo que vê.
— Quem fez isso desta vez? — tornou a me encarar, meio sorrindo, meio triste. Preocupado de verdade, não fingindo se importar como sempre.
Desejei ter aquela coragem imensa de encará-lo nos olhos, e admitir que eras tu. Meu problema sempre foi, e sempre serás tu. Só que eu não posso, e eu também não quero. Foi tão difícil deixar tudo certo, para eu simplesmente ir lá e… entortar tudo novamente. E eu também não quero te ouvir dizer que sente muito, ou dar uma risada sem jeito. Isso só me deixaria mais triste. O que agora parece bem impossível.
— Ah, as pessoas sabe? Não são poucas que fazem isso, e elas conseguem realmente me destruir. — encarei o chão.
— Não vai me falar? Não posso te ajudar assim. — tu falas irritado.
Não é que eu não queira ajuda, eu quero, e muito. Só que eu não sei pedir. Eu não sei me entregar, e eu sou orgulhosa demais para chorar na frente de alguém. Eu sou orgulhosa demais para contar o que realmente está acontecendo comigo, porque é bobagem. Não é o que todos acham? Os meus problemas são tão pequenos comparados aos de tantas pessoas por ai. Não. Vale. A. Pena.
— Eu quero ajuda, e eu gostaria de poder te contar, mas não dá, mesmo. — falei baixo, doído.
É como se cada pedaço do meu corpo subitamente tivesse me deixado para trás, e eu fosse somente um fantasma. Um fantasma de quem eu costumava ser. Aquela que pulava por ai, alegre, não ligava nenhum pouco para o que diriam ou, para o que achavam. As pessoas mudam tanto por causa de outras que até me assusto. Me assusto porque é um terror cada vez que paro na frente do espelho. E tu, tu não melhoras isto.
— Tu és meio quebrada, sabia? — tu ris.
— Eu sei que sou. Eu sei que sou. — rio também para disfarçar o quanto este teu comentário doeu.
— Mas eu te entendo, eu sei como é estar tão apaixonado por alguém, que tu farias qualquer coisa pela pessoa. É tão bom ter alguém que faça o mesmo por ti. — tu sorriste aquele sorriso bobo de quem está apaixonado, e de repente, todo teu rosto se iluminou.
O baque de ouvir aquilo foi tão forte, que não raciocinei de imediato. Senti algo frio percorrer todo o meu corpo, e pude jurar que estava caindo. Mas ainda estava de pé, te encarando como quem não acredita em nada. E eu realmente não acredito em nada, mas acreditei em ti. Eu acreditei tanto em ti, eu fui tão inocente, e a culpa de eu estar agora, desse jeito, é só minha.
— Ei, não… não chora. — tu falaste receoso, sem reação. E me abraçou. — Eu te amo ok? Não se esquece disso. Nunca. — e eu percebi que tu nunca serias capaz de me amar do jeito que eu precisava, do jeito que eu queria.
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